Oxum

Oxum
Orà Yè Yé Ofyderímàn (salve mãezinha doce, muito doce)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Incongruências

O que é incongruência? Ah! Incoerência, contradição. Esse texto é uma verdadeira incongruência. Comigo mesma. Começar a escrever pelo título nem sempre dá certo. Ensino isso aos alunos. Escrevam primeiro o texto, depois coloquem o título. Casa de ferreiro? Pode ser! Mas acho que sou assim, incoerente com minhas próprias teorias. Acho isso bom. Já tentei ser coerente comigo mesma e não consegui. Sofri muito. É muito difícil ser corente o tempo inteiro. O ser humano muda, como mudam as nuvens no céu. Como mudam as ondas do mar. Como mudam os ventos. Para que forçar a barra do inexorável? Essa mania de encasquetar com alguma coisa. Flexibilidade. Isso! Flexibilidade traz leveza. Harmonia. Não ter medo de um dia ser uma coisa , no outro ser outra ou outro. Aceitar as fragilidades próprias do que é humano. Ver poesia numa fila de ônibus. Ver amor numa pétala de flor. Amar o impossível e o previsível. Com generosidade, com alegria. Incongruência é estar humano.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Curso de Comida Vegetariana

Ainda neste mês de marçoserá realizado um Curso de Comida Vegetariana. Maiores informações em breve.

Viagem a Uberlândia

No próximo dia 20 de março, viajarei para Uberlândia para participar da cerimônia de entrega de doação de material de construção que será utilizado na reforma do prédio da Creche Universo Infantil.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Identidade - Mia Couto

Identidade

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço

in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Recordações de infância

Recordações...

O Natal da minha infância começava no dia 16 de dezembro, com a novena para o Menino Jesus. Toda noite, mamãe reunia a garotada e as vizinhas. Interrompíamos as brincadeiras na rua, para rezar o terço. Terço longo, longo... O tempo não passava. Uma, duas, três horas. Não sei. Na minha imaginação de criança, demorava o equivalente a cinco, seis horas para terminar. Hora de criança tem mais de 200 minutos. Isso acontecia todo dia, durante nove longos dias. A ansiedade pela chegada do Papai Noel era imensa. Nove dias que pareciam um ano.
Finalmente, chegava o dia 24 de dezembro. Que alegria! O que interessava nessa ladainha toda estava prestes a acontecer. Presentes. Isso mesmo. O fim da novena me lembrava os presentes. Acreditava piamente que um velhinho muito branco e barbudo, montado em seu trenó puxado por renas, viajava pelo mundo distribuindo os presentes para as crianças boazinhas. Quando não ganhava nada, ninguém precisava explicar: certamente, não tinha sido boazinha naquele ano. Nos dias que antecediam o Natal escrevia cartas e mais cartas pedindo tudo que tinha vontade de ter. E eram tantas coisas! Sonhava com todos os meus sonhos de presentes.
Na noite do dia 24, mais uma hora interminável de reza e cantos. Na cozinha, os panetones cheiravam. O bacalhau com batatas fervia no fogão. A ceia era às 9 horas. Após a ceia, hora de ir para a cama. Coração aflito, deitava, mas ficava até tarde conversando e de ouvidos bem abertos para ouvir o velhinho chegar. Finalmente, vencida pelo sono, dormia. Acordava de madrugada e ia sorrateiramente verificar os sapatos que ficaram no corredor à espera dos regalos. Nem sempre havia algo lá. Provavelmente, ele estava atrasado. Os caminhos eram longos e tortuosos. Pela manhã, bem cedinho, acordava e mal podia esperar para ver o que havia trazido o amável velhinho. Nem sempre era o que queria. Mas havia alguma coisa.
No Natal da minha infância, havia bilboquês, gaitas e piões. Piorras havia também. Bolinhas de gude, bolas coloridas para encher com as forças do pulmão. Havia piorra. Daquelas que a gente empurra para baixo e ela gira assobiando uma música. Era colorida e quando girava as cores se misturavam indefinidas.
No Natal da minha infância, havia árvore de cipreste enfeitada com balões. Doce de cidra e de mamão. Balas e refrigerante. Vestidos novos feitos pela mamãe. Sapatos que serviriam também para ir à escola. Tudo novinho em folha.
No Natal da minha infância tinha castanhas que papai quebrava depois do almoço. Castanhas portuguesas docinhas. Figo seco. Doce de figo em calda feito pela tia Marieta – preparado em tacho de cobre legítimo.
No Natal da minha infância tinha Bambi de feltro com rabinho enfeitado por flor. Tinha boneca de cabelo duro que não podia pentear. Tinha terço, às três da tarde. Meninada correndo e comendo tudo que havia numa alegria infinita de um dia de fartura.
No Natal da minha infância tinha amor. Tinha esperança. Tinha a certeza de que o menino Deus nascera.
No Natal da minha infância tinha visitas das amigas de longe. Tinha troca. Tinha compartilhamento.
No Natal da minha infância, o dia 25 era para mostrar os presentes e brincar, brincar, brincar.
Hoje, tenho saudades dos Natais da minha infância.


Stela Maris da Costa
Dezembro 2009